Antropologia Cultural - Prof. Brito

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Antropologia Cultural

 

 

Antropologia cultural: aproximação teórica e contribuições para debate*

                                                                                                                               Brito**

 

 
Introdução

 
 

 

          Na atualidade, mesmo diante de todo o progresso material atingido pelo homem e da maior interdependência entre países, economias e culturas, os cientistas ainda se deparam com dificuldades para apreender estas realidades que se tornam cada vez mais complexas. Considerando que o conhecimento científico é fundamental para a compreensão das formas de organização societária das diferentes épocas e lugares, o presente artigo tem por objetivo fazer uma aproximação teórica no campo da antropologia e, ao mesmo tempo, traçar linhas gerais da antropologia cultural.

Iniciaremos este percurso a partir da concepção de que Antropologia é uma ciência. Segundo Costa (2001, p. 11-13),

 

ciência (de scire, saber, conhecer) é uma forma especial, diferenciada de conhecimento. [...] É ao mesmo tempo uma atividade e um campo de ação. Como atividade, seus objetivos são descrever, interpretar, explicar e prever a realidade, como campo de ação, é o terreno comum onde se mesclam e interagem todas as contribuições de todas as áreas do conhecimento científico.

 

Considerando-se esta acepção, pode-se dizer que a antropologia é uma ciência que estuda o homem em sua totalidade, incluindo os aspectos biológicos e sócio-culturais como parte integral de qualquer grupo e/ou sociedade. Seu objeto de estudo é dividido com outras ciências como a biologia, a história, a economia, a psicologia e política, entre outras. Na opinião do professor Luiz Gonzaga Mello (2003, p. 34), o que distingue a antropologia “das demais ciências sociais e humanas é o objetivo que a sustenta de estudar o homem como um todo”. Deste modo, suas questões se concentram no homem, de um lado como componente do reino animal e de outro, no seu comportamento como ser social.

No sentido etimológico[1], a palavra “antropologia” tem a sua origem no grego άνθρωπος, ou seja, anthropos que significa homem/pessoa, enquanto logia ou logos (λόγος) que quer dizer ciência, estudo. Logo, antropologia é a ciência do homem, (MELLO, 2003) e, a partir da identificação e do estudo dos modos de vida, formas de habitação, alimentação e vestuário, das relações sociais, manifestações religiosas, símbolos e seus respectivos significados, busca compreender as origens e a dinâmica da natureza humana, em suas diversas formas de organização e produção de sobrevivência.

Enquanto campo do conhecimento, a antropologia contribui para descrever e analisar os sentidos mais amplos da variabilidade do ser humano. Por esta razão, a antropologia aborda temas heterogêneos da existência e da produção das diferentes culturas humanas, como a arte, a economia, a família, a história, a língua, a literatura, a política, a religião e a biologia humana, entre outros.

Uma distinção entre a antropologia e outras áreas das ciências sociais ocorre quanto ao seu caráter global e comparativo que, a partir de determinadas teorias e metodologias, investiga e tenta construir generalizações sobre o significado do humano no tempo e no espaço. Neste campo de pesquisa, os antropólogos fazem comparações que inclui as sociedades humanas de diferentes espaços geográficos e períodos da história, desde o surgimento da humanidade até as sociedades contemporâneas. Um dos maiores aportes da antropologia tem sido a sua contribuição quanto ao conhecimento das diferenças cruciais entre a evolução biológica (de transmissão genética) e a dinâmica cultural transmitida mediante as diversas formas de ensino, as aprendizagens e as trocas de saberes.

Os antropólogos consideram primordial realizar trabalhos de campo e dão especial importância às experiências de primeira mão, participando das atividades, costumes e tradições da sociedade a ser estudada. A antropologia é fundamentalmente multicultural, pois enquanto os primeiros estudos antropológicos analisavam diversos povos “primitivos” e suas respectivas culturas, o seu trabalho atual se concentra nas culturas contemporâneas e suas variações nas formas de pensar, organizar e produzir. Um exemplo bastante presente é o investimento de estudiosos com pesquisas relacionadas com a sociedade globalizada, o processo de mundialização e seus desdobramentos.

As correntes teóricas atuais da antropologia são balizadas por pesquisadores que defendem a utilização de uma combinação de recursos metodológicos, tradicionais e sofisticados, que permitam o exame das organizações humanas nos contextos de suas culturas e na perspectiva da totalidade dos objetos de estudo.

 

1. Divisões e campos de estudo da antropologia

 

A antropologia pode ser dividida em dois grandes ramos, como a antropologia físico-biológica e a antropologia sócio-cultural, sendo que cada uma deles abriga diversas correntes de pensamento. Com este entendimento, Mello (2003, p. 36-37), assinala que

 

a antropologia física estuda os aspectos biológicos do homem, misto de história natural e ciência natural do homem. [... Enquanto], a antropologia cultural é o nome que se dá ao outro grande ramo da antropologia geral. O campo dessa disciplina especial é vastíssimo, pois ela se propõe estudar a obra humana. Ora, essa obra que se denomina cultura é ‘este conjunto complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, lei, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade[2].

 

Deste modo, enquanto a antropologia física trata da evolução biológica e da adaptação fisiológica dos seres humanos, a antropologia social ou cultural se ocupa das formas das pessoas viverem em sociedade, ou seja, das dinâmicas culturais, com suas respectivas línguas, costumes, valores e tradições.

 

1.1 Antropologia físico-biológica

 

A antropologia física se ocupa principalmente da evolução do homem, a biologia humana e o estudo de outros primatas, aplicando métodos de pesquisa utilizados nas ciências naturais[3]. A biologia humana é um dos ramos importantes da antropologia física e constitui o estudo dos povos contemporâneos e de seus diferentes traços biológicos. Grande parte dos estudos e discussões antigas se concentrou na identificação, no número e nas características das chamadas “raças principais”. Na medida em que se foram desenvolvendo técnicas mais sofisticadas para medir a cor da pele e dos olhos, a textura do cabelo, o tipo sanguíneo, a capacidade craniana e outras variáveis, a classificação das raças se tornou muito mais sofisticada e complexa. Vale ressaltar que os teóricos atuais sustentam a concepção de que qualquer idéia sobre as denominadas “raças puras” ou “modelos originais ancestrais” é enganosa e errônea. Todos os seres humanos atuais são Homo Sapiens Sapiens e descendem dos mesmos originais universais e complexos. Na verdade, os traços genéticos sempre variam com a geografia segundo a resposta biológica de sua adaptação ao meio, mas em cada região a herança genética produz uma gama de variedades de tipos e combinações intermediárias. Portanto, a tentativa de associação de pessoas a categorias segundo possíveis raças, é mais um recurso que busca camuflar a realidade por meio de falaciosas explicações sociais, econômicas, políticas ou ideológicas, mas que não tem uma sustentação científico-biológica. Daí talvez se possa concluir que os qualificativos “asiático”, “negro”, “hispânico” ou “branco” obedecem a definições sociais que comportam uma grande mistura de características genéticas e culturais.

Com o avanço das ciências e ajuda de outros especialistas, os antropólogos concentram suas atenções nos complexos moldes da genética humana, estudam a interação das adaptações genéticas, bem como os ajustamentos e acomodações não genéticas, fisiológicas e culturais, com relação as doenças, a desnutrição e a pressão do meio, assim como as grandes altitudes e os climas quentes. Os antropólogos, por exemplo, com ajuda de médicos especialistas em nutrição passaram a combinar os enfoques biológicos e genéticos com dados culturais e sociais, seja para estudar doenças como a hipertensão e a diabetes ou para investigar o crescimento e/ou desenvolvimento dos grupos sociais em diferentes condições de alimentação e saúde.

 

1.2 Antropologia social e cultural

 

A antropologia cultural, um dos ramos em que se divide esta ciência, estuda as inúmeras culturas e povos existentes no mundo, com o objetivo de conhecer e comparar as suas semelhanças e diferenças, bem como as influências e os intercâmbios de aspectos/dimensões culturais. Grande parte da investigação antropológica se baseia em pesquisas de campo realizadas com diferentes culturas, com o objetivo de observar, por exemplo, os ritos, as cerimônias, os símbolos, os valores e as mudanças, entre outros aspectos.

Reconhecemos também que a antropologia cultural pode ser subdividida em etnologia, lingüística e arqueologia. Na primeira metade do século XX, grande parte dos estudos estava orientada a registrar os diferentes estilos de vida de determinadas culturas que ainda não tinham experimentado a influência dos processos da chamada modernização e/ou ocidentalização. Foram realizadas muitas pesquisas de campo (etnografias) baseadas na descrição da produção de alimentos, da organização social, da religião, das formas diferentes formas de vestir, da cultura material, da linguagem e de outros aspectos das diversas culturas. As análises comparativas destas descrições etnográficas, que constituem generalizações mais amplas de esquemas e dinâmicas culturais, continuam sendo os objetos de estudo da etnologia.

Durante a segunda metade do século XX, a etnologia (que hoje é conhecida como antropologia cultural) começou a relacionar seu campo de estudo com o da antropologia social, desenvolvida por cientistas britânicos e franceses. Em um breve período se debateu intensamente se a antropologia deveria ocupar-se do estudo dos sistemas sociais ou de análises comparativas das culturas. O nome atual de antropologia sociocultural decorre da conclusão dos antropólogos atuais, de que as investigações das formas de vida e das culturas quase sempre estão relacionadas. Assim, a etnologia é uma parte mais complexa da antropologia na qual se realizam estudos comparados de povos ou grupos de pessoas com características diferentes.

 

Etimologicamente, a etnologia (do grego ethnos = povo) significa o estudo ou a ciência do povo. [...] Já a lingüística trata de um aspecto restrito da cultura que é a linguagem. [...] O terceiro ramo da antropologia cultural é a arqueologia (archaicos = antigo) pré-histórica, que também se reveste de significação para a antropologia geral. (MELLO, 2003, p. 38)

 

Em seu aspecto teórico a etnologia se dedica ao estudo comparativo e sistemático da variedade de povos, ou seja, ao problema de explicar as semelhanças e diferenças entre as culturas, analisando o desenvolvimento histórico de uma determinada cultura e a sua relação com as outras (MELLO, 2003). Este processo permite a incorporação de novas perspectivas e marcos teóricos, como por exemplo, o papel do indivíduo na sociedade, bem como a personalidade de um sujeito e a sua relação com esta sociedade. No entanto, os antropólogos também fazem etnografias. Mas o que vem a ser etnografia?

A partir da etimologia, verifica-se que “grafia” vem do grego graf(o), que significa escrever sobre, escrever sobre um tipo particular, enquanto a palavra “etn(o)” indica uma sociedade em particular. No que se refere à nomenclatura, o uso de diferentes termos para descrever os campos da antropologia apresenta variações de acordo com as tradições das academias européias e estadunidenses. O que geralmente é chamado de “antropologia cultural” nos Estados Unidos, na França se reconhece como “etnologia” e na Grã-Bretanha, como “antropologia social”. No caso do Brasil, o termo “antropologia cultural” sofreu influências do antropólogo Gilberto Freire que estudou com Franz Boas[4] na Universidade de Columbia, Estados Unidos. Mas na academia brasileira há também influências da nomenclatura britânica de antropologia social.

Para o antropólogo belgo-francês Claude Lévi-Strauss, a etnografia “corresponde aos primeiros estágios da pesquisa” (apud MELLO, 2003, p. 39), ou seja, é a especialidade da antropologia que tem por objetivo o estudo e a descrição dos povos, sua língua, raça, religião, e manifestações materiais de suas atividades. Ele considera ainda a etnografia como parte ou disciplina integrante da etnologia que visa à descrição da cultura de um determinado povo, em áreas como o sexo, a morte, ou a produção de bens[5]. Deste modo, segundo esta corrente teórica, pode-se dizer que

 

a etnografia estuda preponderantemente os padrões mais previsíveis do pensamento e comportamento humanos manifestos em sua rotina diária, ou seja, as atividades humanas como os fatos e/ou eventos menos previsíveis ou manifestados particularmente em determinado contexto interativo entre as pessoas ou grupos. [...] O objetivo é documentar, monitorar, encontrar o significado da ação (MATTOS, 2001).

 

No Brasil, a etnografia é também conhecida como pesquisa social ou observação participante[6] e compreende o estudo antropológico sistemático, baseado em trabalhos de campo, nos quais os pesquisadores realizam, por certos períodos de tempo, as observações diretas e as descrições das formas costumeiras de viver de grupos particulares de pessoas.

Para Mello (2003, p. 39), a “etnografia engloba também os métodos e as técnicas que se relacionam como trabalho de campo, com a classificação, descrição e análise dos fenômenos culturais particulares (quer se trate de armas, instrumentos, crenças ou instituições).” Em face disso, assumem importância ímpar as técnicas de registro e a documentação. Estes recursos podem, com o uso da técnica de observação participante, possibilitar que os pesquisadores tomem parte de situações ou fatos e os interprete sistemática e cientificamente até que adquiram significado[7].

 

2. Correntes teóricas da antropologia

 

Além do caráter global da antropologia, para melhor compreender o seu campo de estudo, é relevante reconhecer que existem várias correntes teóricas. Neste texto, por opção metodológica, indicaremos apenas duas grandes tendências teóricas. A primeira diz respeito à visão tradicional da antropologia comparativa baseada no método dedutivo dos evolucionistas e pressupunha que as mudanças na vida cultural da humanidade seguiriam leis definidas e aplicáveis em todos os lugares habitados pelo homem. Para se compreender melhor este método, vale esclarecer que “deduzir é ir do geral para o particular” (COSTA, 2001, p. 41). O método dedutivo é lógico e pressupõe que existam verdades gerais já afirmadas e que sirvam de base (premissas) para se chegar através dele à conhecimentos novos. Assim,

 

impulsionada pela analogia com a teoria da evolução biológica (Darwin publicara A origem das espécies em 1859), essa linha buscava descobrir leis uniformes da evolução, partindo do pressuposto fundamental de uma igualdade geral da natureza humana. Em função disso, todos os diferentes povos deveriam progredir segundo os mesmos estágios sucessivos, únicos e obrigatórios – daí o uso que os evolucionistas fazem de “cultura humana” e “sociedade humana”, sempre no singular. Esse substrato comum de toda a humanidade explicaria a ocorrência de elementos semelhantes em diferentes épocas e lugares do mundo. A comparação entre tais elementos permitiria esclarecer, não só esse caminho único da evolução da humanidade, como também o estágio no tempo em que cada povo se encontra. Obviamente esses autores colocavam no ápice do processo de evolução a própria sociedade em que viviam (CASTRO, 2004, p. 15).

 

 Todavia, as atuais tendências teóricas na antropologia apontam para as limitações do método comparativo evolucionista. Na opinião de Boas (2004, p. 38-41), “tudo o que se vem escrevendo e dizendo em louvor [ao método comparativo], tem sido notavelmente estéril com relação a resultados definitivos [...]”. Destarte, ao desenvolverem investigações que visam a compreender os fenômenos culturais de diferentes sociedades, os antropólogos atuais consideram que a cultura é construída e aprendida pelos sujeitos em um processo histórico, o que permite reconhecer a existência de especificidades para cada “modelo” cultural.

A segunda corrente teórica da antropologia está assentada no método histórico empírico de indução[8] defendido por Franz Boas, que critica o determinismo geográfico do método comparativo/evolucionista da antropologia e nega a existência de evolução geral no desenvolvimento cultural da humanidade. Para Boas (2004, p. 31-32),

 

não se pode dizer que a ocorrência do mesmo fenômeno sempre se deve às mesmas causas, nem que ela prove que a mente humana obedece às mesmas leis em todos os lugares. Temos que exigir que as causas a partir das quais o fenômeno se desenvolveu sejam investigadas, e que as comparações se restrinjam àqueles fenômenos que se provem se efeitos das mesmas causas.

 

Em outras palavras, na perspectiva do método histórico de indução, não é possível estabelecer leis gerais para todos os povos, pelo contrário, os estudos antropológicos devem considerar as culturas tomadas individualmente. Franz Boas (2004, p. 34) sustenta ainda, que o método antropológico deve possibilitar “um meio de reconstruir a história do desenvolvimento das idéias com uma precisão muito maior do que aquela permitida pelas generalizações do método comparativo”. Na prática, observa-se que os novos conhecimentos no campo da antropologia desarticulam determinadas idéias e teorias baseadas nas noções etnocentristas[9] e construções estreitas do potencial humano, possibilitando por meio da investigação, a compreensão das origens da desigualdade social nas formas de raça, gênero, economia, cultura, tecnologia, entre outras.

Observamos que os esquemas mais simples de evolucionismo cultural propostos durante o século XIX têm sido objetos de discussões elaboradas e modificadas à luz dos novos dados arqueológicos e etnológicos. Destacados antropólogos de princípios do século XX, como o germano-estadunidense Franz Boas e o estadunidense Alfred Louis Kroeber, adotaram pontos de vista bastante anti-evolucionistas, já que sustentavam a idéia de que os processos culturais e sociais ocorrem de modo muito diferente em todo o mundo, sendo, portanto, difícil discernir algum processo que seja de tendência geral.

Como vimos, existem duas posturas muito diferentes para explicar a dinâmica cultural. Por um lado os evolucionistas, partindo da premissa da unidade psíquica fundamental e geral de toda a humanidade, defendiam que nas distintas sociedades constroem processos muito similares de desenvolvimento cultural. Por outro, a postura teórica contrária sustenta que a chave da dinâmica cultural encontra-se nas condições materiais da vida. Por exemplo, as fontes de energia, as tecnologias, os sistemas de produção dos grupos humanos e as influências ambientais (geográficas e climáticas) influenciaram historicamente no desenvolvimento de determinados sistemas culturais complexos.

 

3. Pesquisa social e cultural

 

Na antropologia cultural, a investigação se ampara na idéia fundamental da observação participante no interior de uma comunidade ou sistema social. O antropólogo se introduz (vive) na vida da comunidade e, por meio de contatos e observações cotidianas, desenvolve a sua pesquisa. Esta primeira fase da investigação de campo requer semanas ou meses, nos casos da necessidade de aprender a língua local. Os primeiros etnógrafos obtinham os dados a partir de entrevistas em profundidade com alguns informantes principais, como pessoas que conheciam profundamente a cultura e o sistema social locais. Estes dados eram verificados e cruzados com os de outros informantes e com as observações diretas do próprio pesquisador de campo.

Sem dúvida, a investigação das distintas sociedades e povos exige hoje outras técnicas e instrumentos metodológicos. As entrevistas estruturadas (com amostragem) são utilizadas de forma rotineira para a obtenção de uma informação. Por exemplo, o pesquisador pode realizar entrevistas para observar o consumo de alimentos, o comportamento sanitário, os recursos econômicos, os movimentos migratórios de trabalhadores, o tempo livre, entre outros aspectos de um determinado grupo social. Para analisar a estrutura econômica, o observado participante precisa registrar com minuciosidade todas as atividades que envolvem o trabalho, o mercado e a produção da sobrevivência da comunidade pesquisada. Quando se trata de estudar os aspectos da personalidade, podem ser utilizadas técnicas com auxilia da psicologia. Também se submetem a observação e análise do antropólogo, os dados dos registros religiosos, os textos locais, os documentos governamentais e outras fontes escritas.

À medida que os dados são mais complexos e intrincados, e se faz necessário o tratamento rotineiro de milhares de fragmentos de informação, os antropólogos têm recorrido aos computadores e programas (softwares) sofisticados para desenhar as seqüências temporais, as relações espaciais e demais esquemas sociais. As tendências de mudanças culturais, a interação entre as atividades econômicas e sociais globais, as inter-relações étnicas e outros padrões complexos, também podem ser estudados pela antropologia com o auxilio de avançados recursos estatísticos.

Destarte, os modernos recursos metodológicos de investigações antropológicas não substituem totalmente os estilos tradicionais de pesquisa de campo. Ao contrário, as entrevistas em profundidade com informantes, assim como a complexa análise qualitativa dos sistemas simbólicos, as cerimônias e outras práticas culturais, constituem também partes essenciais de uma metodologia complexa que busca captar os elementos estudados em sua totalidade.

 

4. Tendências atuais da antropologia

 

Na atualidade a antropologia está se convertendo pouco a pouco em uma ciência aplicada, já que os pesquisadores estão se concentrando em aspectos como administração, educação, proteção ao meio ambiente, desenvolvimento urbano e também em aspectos econômicos como o comércio eletrônico, a revolução tecnológica e o processo de globalização. No que se refere aos campos de atuação, hoje são muitos os antropólogos contratados por órgãos públicos, empresas de pesquisa, organizações privadas e não governamentais, para realizar trabalhos de campo em aspectos culturais, e econômicos, projetos sociais/educativos ou programas de desenvolvimento para atender algum grupo social.

A complexidade dos estudos e o deslocamento de pesquisadores para o estudo de sistemas heterogêneos e diversificados, assim como a necessidade de utilização de métodos quantitativos e computacionais de pesquisa, têm estimulado o trabalho de investigação em equipes. Se anteriormente uma pesquisa só implicava o emprego de um pesquisador de campo, que se isolava durante meses em algum povoado remoto, hoje, a maior parte dos projetos de pesquisa de campo necessita de apoio de diferentes profissionais, incluindo assessores estatísticos, técnicos em informática, biólogos, sociólogos e estudantes colaboradores (bolsistas de iniciação científica).

 

 

Referências bibliográficas

 

BOAS, Franz. Antropologia cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

CASTRO, Celso. Apresentação. In: BOAS, Franz. Antropologia cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, p. 7-23.

COSTA, Sérgio Francisco. Método científico: os caminhos da investigação. São Paulo: Harbra, 2001.

FGF – Fundação Gilberto Freyre. Disponível em <http://www.fgf.org.br/> Acesso em 06/02/2005.

MATTOS, Carmem Lúcia Guimarães de. A abordagem etnográfica na investigação científica. Rio de Janeiro: UERJ, 2001. Disponível em <http://www.ines.org.br/paginas/revista/ > Acesso em 30/01/2005.

MELLO. Luiz Gonzaga. Antropologia cultural: iniciação, teoria e tema. Petrópolis: Vozes, 2003.

ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1999. (Coleção Primeiros Passos).

 



* Este artigo foi escrito para uso na disciplina de Antropologia Cultural (Curso de Administração - FASAM). Em caso de citação total ou parcial deste texto, use a seguinte referência: BRITO, W. A. Antropologia cultural: aproximação teórica e contribuições para o debate. In: Antropologia cultural - curso de administração. Goiânia: FASAM, 2007.

** Wanderley Azevedo de Brito (britoaw@yahoo.com.br): Doutorando e Mestre em Educação, Especialista em Relações Internacionais e Graduado em História. Professor Adjunto de Antropologia Cultural na Faculdade Sul Americana. Assessor para Assuntos Institucionais na Universidade Estadual de Goiás – UEG. Pesquisador na Comissão da Assessoria de Avaliação Institucional da UEG. Pesquisador Voluntário nos Programas de Doutorado e Mestrado em Educação da Universidade Católica de Goiás. Vice-Presidente da ONG Ambiental Quatro Elementos. Consultor para Assuntos Institucionais e Antropologia Cultural das Organizações.

[1] A palavra etimologia vem do grego ethymon que significa “verdadeiro”. A etimologia é o estudo da origem das palavras.

[2] Ralph L. Beals y Harry Hoijer. Introdución a la antropologia, 1971, p. 9, apud. MELLO, 2003, p. 36-37.

[3] As ciências naturais têm como principal objetivo o estudo da natureza. Nas ciências naturais são estudados os aspectos físicos e não humanos do mundo. São exemplos de ciências naturais: astronomia, biologia (botânica e zoologia), física, geografia física, geologia e química.

[4] Franz Boas (1858-1942), antropólogo alemão, se estabeleceu nos EUA e lecionou na Universidade de Colúmbia, em Nova York, onde contribuiu para a criação de um dos principais centros de pesquisas antropológicas das Américas. Como antropólogo, Boas procurou salientar a grande variedade de formas culturais existentes, colocando como a tarefa da antropologia descobrir, entre as variedades do comportamento humano, quais são comuns a toda a humanidade. Ele foi o fundador da moderna antropologia cultural, que contrapunha as teorias evolucionistas e racistas ainda dominantes no início do século XX a uma perspectiva relativizadora, centrada na noção de cultura. Este estudioso apontava que cada cultura é uma unidade integrada, fruto de um desenvolvimento histórico peculiar. Franz Boas foi um dos pioneiros da pesquisa de campo como método privilegiado para o estudo das diferentes culturas.

[5] Nesta linha de pensamento, o sexo pode ser compreendido dentro das relações entre parceiros e/ou familiares, a morte dentro da religião, enquanto a produção/subsistência dentro da economia. Sabe-se que as ações humanas estão interligadas por traços culturais.

[6] A “observação participante” é uma metodologia de pesquisa no qual o investigador é um canal que funciona como um instrumento de pesquisa, isto é, um contato direto, freqüente e prolongado com os atores sociais e os seus contextos.

[7] Esse significado é a cultura compreendida com um saber científico.

[8] Segundo Costa (2001, p. 41), “induzir [...] é ir do particular para o geral. [...] Na pesquisa qualitativa o pesquisador colhe informações, examina cada caso separadamente e tenta construir um quadro geral da situação. É um exercício de ir juntando as peças, como num quebra-cabeça, até o entendimento global do problema”.

[9] Etnocentrismo é uma visão do mundo onde um determinado grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros grupos étnicos, que são pensados e sentidos através daquele que é considerado o detentor de modelos de valores e definições do que é a existência humana. No plano intelectual, a visão etnocêntrica dificulta a possibilidade de uma pessoa pensar e considerar a diferença, o outro ser humano (ROCHA, 1999).



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